Opinião

“A obra de São Queiroz é resultado de um cérebro
que está no mundo pensando também com a emoção.”

por Antonio Hélio Cabral

Antonio Hélio Cabral

Depois de artista, São Queiroz me credita como sendo parte importante da evolução de seu trabalho. Imagino que sim.

O desenvolvimento de um artista se dá nos níveis da assimilação pela convivência com determinado universo de expressão e no do silêncio, em que ele acessa o que já tem constituído em si. O mestre é aquele que confirma o que já existe em você.

O trabalho artístico é um rio cujas margens se nivelam com o transbordar das águas. De um lado está a parte teórica. De outro, a vivência adquirida com a experimentação, com a própria existência. As margens do experimento e da própria existência se encontram na criação.

Pintura e gravura

São e eu compartilhamos dois ambientes artísticos: um ateliê de pintura e outro de gravura. O de pintura é das ações brutas naturalmente radicalizadas com os vapores de tinta permeando a transformação. O de gravura é mais sereno, linear e reverente às delicadezas do papel.

Qualidade rara como artista

O trabalho de São tem um suporte grande do imaginário, explorado por ela com fluência e soltura. Uma qualidade rara que ela tem como artista é no gesto intenso e paradoxalmente desembaraçado. Normalmente, a intensidade vem com enrosco, com quebras, com arranhões. Ela trabalha num processo de intensidade, frescor e fluidez.

No desenho, capacidade de confrontar traço e forma

A palavra desenho vem de desígnio, do destino ao qual o artista direciona seu imaginário, para a visão que consegue captar.

O desenho de São expressa sua capacidade de se confrontar com o traço, com a forma. Seu traço é a expressão do que ela vê e imagina.

O desenho não está no papel, está na cabeça do artista.

A obra de São é resultado de um cérebro que está no mundo pensando também com a emoção.

Opinion


“São Queiroz’s artwork is the result of a brain that
is in the world also thinking with emotion.”

by Antonio Hélio Cabral

After becoming an artist, São Queiroz has credited me as being an important part of the evolution of her work. I guess so.

An artist’s development takes place on two levels, the assimilation by being around a certain universe of expression, and silence to access what has already been established within. The master is the one who is able to confirm what already exists within you.

The artwork is a river which margins get leveled with the overflow of water. On one side is the theoretical part. On the other, the experience gained with experimentation, with existence itself. The margins of the experiment and of existence itself meet in the creation.

Painting and engraving

São Queiroz and I share two artistic environments: an art studio for painting and another for engraving. The painting art studio is the one with brute actions naturally radicalized with ink vapors permeating transformation. The one for engraving is calmer, more linear and reverent to the paper’s delicacy.

An artist with a rare quality

The work of São has a huge support of de imaginary, explored by her with fluidity and  liberation. A rare quality that she has as an artist is her intense and at the same time paradoxically untrammeled gesture. Usually intensity comes with entanglement, with breaks, with scratches. She works in an process of intensity, freshness and fluidity.

In drawing, ability to confront trace and form

The word design comes from destiny, the destination towards which the artist directs his imagination, to what the eye can capture.

Sãos drawing expresses her ability to confront herself with trace, with form. Her drawing is the expression of what she sees and imagines.

The drawing is not on paper, it’s in the artist’s head.

Sãos artwork is the result of a brain that is in the world thinking also with emotion.