Minha história

A artista São Queiroz descobriu a arte na infância. Nascida em Lisboa, se mudou para o Brasil aos 7 anos. Cursou Belas Artes na faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. Encontrou na tinta e no pincel sua forma de se expressar. Sua obra tem força, impacto e sentimento.

Artist São Queiroz discovered art in her childhood. Born in Lisbon, she moved to Brazil when she was 7 years old. She studied Fine Arts at Santa Marcelina College in São Paulo. She found in ink and brush a way to express herself. Her work has strength, impact and feeling.

A descoberta da arte

A casa do meu tio em Lisboa era cercada de arte.
Estava presente em diversas configurações: livros, música, filmes, quadros.
Um dia apareceu na parede um quadro diferente. Moderno, abstrato. Enigmático.
“O que é isso?”, meu tio perguntou.
Ele era muito provocador.
Sempre incentivava filhos e sobrinhos a analisar o mundo.
“O que você vê aí?”, ele desafiou. “Você gosta do que vê?”
As opiniões ficaram divididas. Alguns não gostaram, queriam que ele tirasse o quadro da parede. Eu gostei.
Aquilo era próximo, eu pensei, do que como criança eu conseguia fazer.

The discovery of art
My uncle’s house in Lisbon was surrounded by art.
It was all over the place, in several forms: books, music, movies, pictures.
One day a different painting appeared on the wall. Modern, abstract. Enigmatic.
“What is that?”, my uncle asked.
He was very provocative.
Always encouraging his sons and nephews to analyze the world.

“What do you see there?”, he challenged me. “Do you like what you see?”
Opinions were divided. Some did not like it and asked him to remove the painting from the wall. I liked it.
That painting, I thought, was close to what I could produce as a child.

A maior influência

Meu tio era um homem interessante, escritor, colecionador de arte.
Sempre queria saber como eu tinha entendido as coisas. O que eu achava de uma música ou de um livro – se eu gostava e por quê gostava.
Ele me mandava ao museu e na volta queria saber o que eu tinha visto e o que tinha achado de tudo.
Aos 17 anos, quando comecei a adquirir um pouco de autonomia, costumava acompanhar os estrangeiros que vinham a São Paulo em visitas ao Masp.
Todos tinham que ir comigo.
É um hábito que mantenho até hoje.

The greatest influence
My uncle was an interesting man, a writer, an art collector.

He always wanted to know how I had understood things. What I thought of a song or a book – if I liked it and why I liked it.
He used to send me to the and then wanted to know what I had seen there and what I had thought of everything.
At 17, when I started to be a little bit free to come and go, I used to accompany the foreigners who came to São Paulo in visits to Masp (São Paulo Art Museum).
Everyone had to go with me. It’s a habit I still have to this day.
Conceição Queiroz

Uma coisa física

Para mim, pintar um quadro é uma coisa física. Tem que ter força para pintar do jeito que eu pinto, com movimentos grandes, muita tinta de cada vez.
A pintura exige de mim muita extensão, alongamento e força. Minha pincelada é livre, vai até onde a tinta consegue se estender. Às vezes, até me machuco.
Quando você coloca muita massa na tela, a coisa foge do seu controle. Você cria um obstáculo para a pincelada, sua mão tem que desviar dele e você não sabe onde a pincelada vai parar.
Conto sempre com o imponderável, não dá para ter controle sobre o que vai acontecer.
Isso é bom para mim. Gosto do relevo para perder o controle.
Às vezes, tiro a tela da parede, mudo a posição inicial do quadro e ele muda de sentido.

A physical thing
For me, to paint a picture is a physical thing. You ought to have strength to paint the way I paint, with large movements, using a lot of ink at a time.
Painting requires me a lot of muscle, stretching and strength. My stroke is free, going as far as the ink can be extended. Sometimes I even get hurt.
When you put too much paint on the screen, you lose control over it. You create an obstacle to the stroke – your hand has to deviate from it and you do not know where the stroke will stop.
I always count on the imponderable, it’s not possible to have control over what will happen.
This is good for me. I appreciate the protusion to lose control.
Sometimes I take the picture off the wall, move the painting from its original position and change the direction of the painting.

Uma estrangeira que falava a mesma língua

Nasci em Lisboa.
A casa do meu tio, casado com a irmã da minha mãe, virou minha segunda casa. Saía da escola e ia direto para lá. Eu tinha um primo de quem fiquei muito próxima.
Aos 7 anos, me mudei para o Brasil. Minha mãe se casara com um português que vivia em São Paulo e nós viemos morar aqui.
Cheguei a São Paulo à noite, estava chovendo, eu estava triste. Não entendia direito o que estava acontecendo e eu falava uma outra língua.
Embora fosse português, era outra língua.
Eu era uma estrangeira.
Na escola demorou quase um ano para as pessoas entenderem o que eu dizia.
Eu era cobrada a acertar, afinal falava a mesma língua.
Só que eu falava a mesma língua, mas não era a mesma língua. Os raciocínios eram diferentes.

A foreigner who spoke the same language
I was born in Lisbon.
The house of my uncle, who was married to my mother’s sister, became my second home. I would go straight there after school. Me and a cousin became very close.
At 7 I moved to Brazil. My mother had married a Portuguese man who lived in Sao Paulo and we came to live here.
I arrived in São Paulo at night time, it was raining, I was sad. I didn’t understand what was happening and I spoke a different language.
Although it was Portuguese, it was another language.
I was a foreigner.
At school it took almost a year for people to understand what I was saying.
I was supposed to speak perfect Portuguese, since it was my native language.
I spoke the same language, but it was not the same language. The line of thoughts were different.

Conceição Queiroz

Espaço de criação

Antes de canalizar essa vontade e entender que a arte era importante para mim, eu gostava da sensação do contato da tinta com o pincel, do pincel com a tela.
De repente, o trabalho começou a fazer sentido, a ter uma linguagem, a seguir uma lógica.
Eu criei um espaço interno de criação.
Comecei a frequentar o ateliê de amigos, alguns viram meus trabalhos e gostaram, eu vendi algumas coisas, dei outras de presente.
Nessa altura minhas filhas já tinham nascido.
Aí parei um pouco de pintar.

A space for creation
Before I channeled this desire for art and understood that art was important to me, I enjoyed to feel the contact of the ink with the brush, of the brush with the screen.

Suddenly, the work started making sense, to have a language, to follow a logic.
I created an internal space for creation.
I started attending the studios of friends, some of them saw my work and liked it, I sold a few things, gave away some others.
By that time my daughters had already been born.
Then I quit painting for a while.

Ponto de partida

O quadro abstrato do meu tio era meu ponto de partida sempre que eu voltava a Lisboa, mas na maioria das vezes tinha coisas novas na casa dele.
Sempre algo novo para ver e aprender.
Voltei para Portugal todas as férias de julho até me casar.
A vida lá era mais pacata e divertida, com praia, verão, estrangeiros.
Eu podia sair sozinha, ia comprar pão, coisas que em São Paulo eram proibidas.
Eu ia para todo lugar de trem com meus primos e minhas primas.
Era difícil voltar para esse lugar contido por grades nas janelas.
São Paulo foi complicada desde a minha chegada.
Me chocaram os muros altos, as portas sempre trancadas, o alarme de segurança.
Tudo era assustador.
Minhas duas irmãs mais novas nasceram aqui.

Starting point
The abstract painting on my uncle’s wall was my starting point whenever I returned to Lisbon, but most of the time he had new things at the house.

There was always something new to see and learn.
I returned to Portugal for vacation every July until I got married.
Life there was safer.
I could go out alone, go out to get bread, the sort of things that were forbidden for me in São Paulo.
In Portugal I would come and go as I pleased. I went everywhere by train with my cousins. It was fun to go to the beach, to enjoy the summer, to meet foreigners from all over.
It was hard to go back to this place surrounded by bars.
Life in São Paulo was complicated from the start.
I was shocked by the tall walls, the ever locked doors, the security alarm.

Everything was scary.
My two younger sisters were born here.

Conceição Queiroz

Liberdade de expressão

Quando chegou a hora de entrar na faculdade, tive de decidir entre Administração, Direito, Economia ou Medicina.
Escolhi Economia.
Ia a muitas exposições de arte e queria desenhar, queria pintar. Me dava tristeza pensar que cursava uma faculdade que não me emocionava.
Fiz um pacto com a família de seguir na Economia e fazer Artes Plásticas como um segundo curso.
Me casei, tive uma filha e fui estudar Belas Artes na Santa Marcelina.
Dois professores na faculdade disseram que eu deveria continuar pintando.
Nunca completei o curso de Economia.

Freedom of expression
When it was time for me to go to college, I had to decide between Administration, Law, Economics or Medicine.

I chose Economics.
I used to go to a lot of art exhibitions and I wanted to draw and to paint. It made me sad to think that I was getting a degree in something that didn’t thrill me.
I made an agreement with my family to keep up with Economics and attend Fine Arts as a second course.
I got married, had a daughter and started to study Fine Arts at Santa Marcelina college.
Two teachers at the college told me I should keep on painting.
I never got my degree in Economics.

Conceição Queiroz

Pincel e tinta

Na Belas Artes, eu descobri a pintura. Até aí nunca tinha pintado com pincel e tinta. Minha experiência era infantil, com lápis de cor e guache, coisas pequenas.
Um professor me desafiava, me mostrava coisas estranhas e perguntava minha opinião. “Não gosto, é muito simples”, eu dizia. “Eu adoro”, ele provocava.
Ele me ajudou a quebrar parâmetros e me deu novas referências.
Descobri que o que eu mais gosto é de pintar.
Não sei se me encontrei na pintura, não sei se sigo perdida.
Mas é o que eu gosto de fazer.

Brush and ink
In the school for Fine Arts I discovered painting. Until then I had never painted with brush and ink.

My experience was childish, with colored pencils and gouache, small things.
One particular teacher used to challenge me. He showed me strange things and asked for my opinion. “I do not like it, it’s too simple,” I would say. “I love it,” he teased.
He helped me break parameters and gave me new references. 
I discovered that painting is what I like the most.
I do not know if I found myself in painting, I don’t even know if I have found myself at all.
But it’s what I like to do.

Conceição Queiroz

A mão do artista

As crianças eram pequenas, faltava tempo, tive de ficar um tempo sem pintar.
Quando retornei, tinha tudo o que precisava: um espaço pronto e ninguém para me impedir.
Achei que era só colocar a tela no lugar, preparar a tinta, pegar o pincel e passar na tela. Nesse momento, descobri que tinha perdido a mão. Eu não tinha mais a mão de artista.
Tinha perdido a memória sensorial da pintura: não sentia a mesma sensação, a tinta não respondia ao meu movimento.
Tive medo de nunca mais conseguir pintar. Insisti até recuperar esse sentimento. Um dia senti de novo.
Recomecei no ateliê do artista Jorge Franco. Também fiz aulas com Antonio Saggese.

The artist’s touch
At some point in my life my three girls were small, time was short and I had to stay away form painting for a while.

When I returned, I had everything I needed: a proper space and no one to interrupt me.
I thought it was just a matter of putting up the screen, prepare the ink, pick up the brush and start to paint. At that moment I discovered I had lost my touch. I no longer had the artist’s hand.
I had lost the sensory memory of painting: I could no longer feel the same sensation, the ink did not respond to my motion.
I was afraid of never getting it back. I had to try hard to recover that feeling. One day I felt it come back to me.
I restarted in the studio of the artist Jorge Franco. I also did classes with Antonio Saggese.

 

Sem método nem plano

Minha obra é mais colorida do que eu. Minha fase mais colorida é o começo, tem quadros com tantas cores que não dá para acreditar que sou eu.
Como nunca fiz profissionalmente, não tive uma ordem estabelecida no meu trabalho. Sempre experimentei à vontade e nunca tive muito método e nem plano – vou seguindo o caminho conforme ele vai surgindo. Isso pode ou não ser um privilégio.
Hoje eu tenho a sorte de só fazer o que eu gosto e o que eu quero. Só não posso parar de pintar, para não perder a mão.
Faz 10 anos que tenho pintado direto, de maneira regular.

No method and no plan
My work is more colorful than I am. My most colorful phase is the beginning.

In my early work there are some paintings with so many colours that one can hardly believe it’s me.
As I have never done art professionally, I never had to establish any order to my work.
I always experienced freely and never had much method and no plan – I follow the path as it emerges. This may or may not be a privilege.
Today I have the privilege of being able to do exactly what I like and what I want to do.
I only know that I can not stop painting or I’ll risk to loose my artist’s touch.
For 10 years now I have been painting on a regular basis.